Todas as semanas, o romance da indústria musical com a inteligência artificial avança em ritmo cinematográfico de velocidade furiosa. Depois de as multinacionais Sony, Universal e Warner terem assinado um acordo de licenciamento com a startup Klay, a Warner fechou contrato com a plataforma Suno para criação de música com recurso a IA, já depois de ter selado um acordo semelhante com a Udio. A parceria com a Suno põe fim a um litígio de dois anos e representa, em português corrente, um “se não podes vencê-los, junta-te a eles”. A Suno pagará à Warner para usar o catálogo da editora no treino de modelos, além de permitir que vozes e identidades dos artistas representados sejam replicadas.
Esta sucessão de entendimentos em tão pouco tempo resulta de uma mudança de paradigma, já conhecida de outros momentos históricos da tensão entre indústria musical, objecto artístico e tecnologia. Tal como escreve o catalão Frankie Pizá, citado pelo First Floor de Shawn Reynaldo, trata-se apenas da repetição de uma ordem anterior. Primeiro criminaliza-se o inimigo para o enfraquecer, depois negoceia-se um acordo, e por fim explora-se o fruto permitido.
O exército anónimo de artistas IA
Estamos a assistir no sofá a uma revolução silenciosa que já está a modificar os padrões autorais. Estes acordos transformam a violação do direito de autor em licenças de utilização. O que até aqui era um faroeste passa a ser uma nova ordem global regulada pelas multinacionais Universal, Sony e. Warner, através de um pacto com os jovens turcos da inteligência artificial. Eles são os próximos Musks, Bezos e Zuckerbergs.
Através destes contratos, a indústria quer convencer-nos de que protege os artistas, quando na verdade o alinhamento é com quem os pretende explorar. O motivo é simples: a evidência de que a IA vai suplantar a inteligência humana. Aconteceu no passado com a evolução dos servidores de P2P para um modelo legal e universal das plataformas de streaming. Primeiro gera-se desconfiança, depois os casos avançam para tribunal, chega-se a um acordo de cavalheiros, e avança-se para a fase de implementação tecnológica.
É neste estado de metamorfose acelerada que estamos, sem que os protestos dos criadores sejam atendidos. A demanda colectiva por transparência é benigna mas precisa de uma moldura legal para se formalizar. Todas estas decisōes são tomadas sem a participação de quem torna a música possível, mas há uma razão essencial para isso. A IA afecta todos os processos da cadeia desde a fonte.


