O impasse está na mercantilização do hip-hop ou na incapacidade de o vermos para além da sua versão McDrive das quatro da manhã? Enquanto há quem se gabe da numerologia, quem se opōe a esse submarino afundado em água limpinha parece um tubarão preso num aquário. É aí que surgem as baladas com as Bárbaras, ou o sonho de classe de dar o salto para a dentição de ouro e as platinas.
Só por enfrentar a grande barreira psicológica do medo e assumir a ruptura com as condutas médias de alienação e perigosa neutralidade, Nada Temas, Nada Temos A Perder de L-Ali merece um louvor. Não joga as regras do jogo viciado do rap, nem cede perante a moderação inclinada da indústria da matemática. Pelo contrário, reivindica um lugar distante da mediocridade para se salvar. Como se vê, é possível e devia servir de exemplo aos que vêm uma faixa única na estrada.
Vais Onde, L-Ali? Se em ensaios sobre a cegueira como Surrealismo XPTO, agitou o subsolo com ameaças de pugilismo e avisos de desobediências às autoridades, uma década após se ter introduzido como parasita esse estilo contundente, inquieto e confrontacional foi refinado. Persistem os confrontos existenciais entre o eu e o outro, a psicanálise da angústia e uma certa miséria humana. Imiscuem-se o amor, o resgate e a lanterna do telemóvel. Nesgas de utopia tangível que não o resgatam do túnel mas acendem o candeeiro.
É ainda e sempre um L-Ali faminto e abnegado, a resolver-se de dentro para fora, com um autotune afinado, a mergulhar na profundidade de Kaytranada e no tanque sem fundo de Yeezus, um dos álbuns do século, quer os especialistas queiram renegar Kanye ou não. E se este é um acto contínuo de reinvenção, há um inesperado flirt com a pop electrónica em Papão, um dueto supra-amoroso com Jüra em Chave e um dez em 10 no cruzamento primoroso de Hélder para Herlander.
Álbuns das últimas semanas
Jane Remover - ♡
O emoji não é inocente. Espelha a simbiótica entre novo mundo velho. O segundo ovo de Jane Remover no cesto de 2025 tem tanto de retrotopia humana, feita de guitarras abrasivas e melodias emocionais, como de experiência científica com a hiperpop - a mais aguda explorada um fragmento de cumbia em How To Teleport.
Jesse Sykes And The Sweet Hereafter - Forever, I’ve Been Being Born
Forever, I’ve Been Born levou uma década a ser feito mas floresce isento de um tempo particular. A mestria das frases de guitarra de Phil Wandscher gravita em torno da expressão da fragilidade de Jesse Syles, e redunda num belo pedaço de folk granítica e cósmica em que se observa a mortalidade com uma serenidade apaziguadora. O fim é um recomeço.
Helviofox - Rodeado de Batida
Sabemo-lo desde sempre que no quarteirão da Príncipe há uma casa para cada um. O benjamim Helviofox, de apenas 19 anos, afirma uma identidade destemida e maquiávelica num EP que recebe o genoma colectivo e o devolve com assinatura própria de pujança rítmica, arrojo perante o desconhecido e equilíbrio entre partes. Não é para meninos.
DJ Narciso - Dentro de Mim
Se em Rodeado de Batida observamos novos recantos na casa, com DJ Narciso revisitamos os motivos incendiários da Príncipe. A adrenalina vem de um lugar suspeito: o clube, onde a música convida a perder a consciência, mas Dentro de Mim não se limita a agir como válvula de escape. Traz o sotão para a pista em roncos do Diabo como Pesadelos, Agancha e Pressão. Os esqueletos vivem e dançam.
Ikonika - Sad
Ikonika reinventa-se como produtora e chama a si a dialéctica pop para o clubbing de geografias como UK Funk ou amapiano. Desvenda-se uma voz interior que assume a metamorfose e humaniza um território habituado à ginástica rítmica. A emotividade de Sad expōe um processo de humanização em curso. O ritmo é a psicanálise.
Y Basics - Metanoia
Antes de finar Y Basics para migrar para o novo heterónimo Dr. Biscuits, o barreirense José Bica dá corpo à claustrofobia e persistência. Metanoia demorou seis anos até nascer “complicado”, previne. Paranóico, obstinado e vasto, acrescente-se. O Noise Test é usado como barreira invisível. Bica expressa-se em diferentes linguagens, como jazz, techno e noise, mas há um fio condutor tétrico, materializado em policamadas de distopia e infinito pessoal.
Gaudi - Jazz Gone Dub
O jazz é a música e o dub o cinema. Os dois são um só, entrelaçados como nos velhos mantras da música de fusão, com a mão indelével de músicos como David Hinds, Jah Wobble, Ernest Ranglin e Sly & Robbie a auxiliar o maestro Gaudi.
Element - Motion Exchange
Antes de ser um disco, este material foi testado ao vivo e talvez por isso ainda venha a ferver de instinto e dinâmica. A fixação de Hiroshi Takakura pela Jamaica redunda numa fita magnética de digidub, encharcada em electrónica, teclados cristalinos e percussōes tribais. Muito Basic Channel, a esticar os limites do dub para lá das geografias físicas.


