Clássicos são clássicos e vice-versa. Quando Rafael Toral se apossa de Solitude, não apaga a luz do original de John Coltrane. Apenas dilata o campo de possibilidades melódicas desse standard maravilhoso. Como faz com God Bless The Child ou My Funny Valentine, para citar os mais transversais.
A luminosidade omnipresente em Traveling Light, segundo tomo de um período de grande fecundidade, é guiada pela guitarra. No anterior Spectral Evolution, a notícia era o regresso ao tecido de seis cordas. O processo regia o movimento fractal e sereno. Dono do seu próprio tempo, Toral absorvia o infinito ao seu redor para se expressar numa forma muito particular de jazz - livre, figurado e até metafísico.
Os pássaros recebem-nos em Easy Living. Está feita a ponte com o passado imediato. A aurora segue uma linha orquestral insinuada em Spectral Evolution. O horizonte expande-se para uma grandiosidade inseparável da beleza das coisas simples. Apariçōes episódicas de Clara Saleiro, Rodrigo Amado, José Bruno Parrinha e Yaw Tembe cooperam nessa trajectória jubilante. A luz move-se em direcção às estrelas como ponto de fuga.
Se Spectral Evolution deixava cair o queixo de incredulidade, o acto contínuo não é menos espantoso. Rafael Toral volta a sondar o desconhecido, sem repetir o programa. Os clássicos provocam Traveling Light sem que a memória pese como menir. E no entanto, esta música é clássica. Harmoniosa, encharcada em melodias, próxima de ser radiante.
Há uma funda tradição em todo este movimento miraculoso. Uma luz que nunca se apaga e se opōe à renúncia da beleza.
Álbuns da Semana
Natural Information Society - Perseverance Flow
Acto único de elogio à procura incessante e teste à paciência, o tronco jazzístico Perseverance Flow expande-se ao longo da repetição em ramos de dub e fisicalidade. A cascata sonora transmite-se a todo o corpo. É música para deixar fluir sem portagens entre a ponderação e a exultação.
Dave - The Boy Who Played The Harp
Sem uma campanha de singles a preceder o terceiro álbum, Dave posiciona-se como um caso à parte de aclamação, um pouco à semelhança de Little Simz. O psicodrama existencial é quase sempre dissecado em longos monólogos iluminados por um cinema sonoro em que James Blake não se limita a dois cameos. Ocupa o papel de realizador ocasional da longa-metragem autobiográfica de Dave Santan. Um homem em missão introspectiva de observar o mundo enquanto radiografa os pulmōes. The Boy Who Played The Harp é álbum de corpo inteiro - peça completa de crónicas do desassossego e interrogação permanente.
Bruce Springsteen - Nebraska ’82: Expanded Edition
Sete álbum inéditos reunidos em Tracks II: The Lost Albums. A biografia visual Springsteen: Deliver Me from Nowhere. O Nebraska electrificado e as sobras das sessōes solitárias originais. Springsteen ubíquo em todo o lado e por toda a parte, na história e no presente. Sobre a arqueologia de Nebraska, só vem confirmar por que roer o osso das cançōes e reservar a guarnição para a mitologia estava certa. É em retiro que Nebraska se legitima como clássico, amparado por inéditos como Downbound Train. Na Electric Nebraska, ressurge o Springsteen imparável em rambóia punk rockabilly com a E-Street Band. A estocada definitiva da história reacende o fogo a crepitar na lareira.
Just Mustard - We Were Just Here
Há uma dimensão estelar nos Just Mustard que extravasa os princípios do shoegaze e do rock. Esse norte tem um nome: Katie Ball, a peça de cristal Swarowski de uma banda que não se força a seguir um rasto histórico apesar de parecenças com os Cranberries iniciais (superiores à reputação posterior), Cocteau Twins ou Lush. Estas cançōes estão cheias de motivos para passar à frente mas atraem como campo magnético.
to you they are birds, to me they are voices in the forest - primordia
Respira-se o ar da floresta em primordia. field recordings, as máquinas necessárias e a predominância de percussōes diluem qualquer entrave entre o humano e o natural. O duo to you they are birds, to me they are voices in the forest faz valer o seu nome. Imiscui-se entre os pássaros para fazer o seu ninho e comunicar com as espécies nativas. Também elas têm os seus refrōes e melodias. Antes de mais, é preciso ouvi-las.
Montanha - Alvorada
Horas de experimentação em queda livre desaguam em Alvorada, o primeiro longa-duração de uma banda com nomes familiares e um primeiro EP perdido na memória. André Costa Gomes, João Sarnadas, Nuno Oliveira e Tito Silva entregam-se ao prazer de jogar sem pensar no resultado. Divagaçōes alimentadas por um processo de reflexão e pesquisa cruzados por satélites e planetas mapeados por fios invisíveis de guitarra e destinos incertos como o kraut, o psicadelismo e a música ambiental.


