O namoro do rock com as máquinas vem de longe. Clássicos como Screamadelica, dos Primal Scream, o díptico Achtung Baby e Zooropa dos U2 - um trio de filhos bastardos do acid house - os irmãos Kid A e Amnesiac dos Radiohead, ou a renascença dos Arcade Fire em Reflektor, produzido por James “LCD” Murphy, fizeram da colisão uma casa comum de pacto, aliança e arquitectura de novas dialécticas.
Deadbeat, dos Tame Impala, não foi o primeiro nem será o último romance electroacústico, mas convém descodificar a percepção de Kevin Parker em 2025. Dos riffs potentes à Black Sabbath de Innerspeaker, da neo-psicadelia de Lonerism, tangida pela pop em Currents, todos eles electrificados pelo peso das guitarras, apesar do enfarte de parafernália de estúdio, resta o desejo incessante de enfrentar cada obra como espécie autónoma de um mesmo ecossistema.
No anterior e menos brilhante The Slow Rush, a contaminação pop de sessōes com Rihanna, Lady Gaga ou Mark Ronson era latente. Cinco anos depois, o ciclo recomeça quando as luzes se apagam, e depois de ter co-produzido o decepcionante Radical Optimism de Dua Lipa. Confirmam-no as coordenadas de house inteligente à Caribou do cartão de visita End of Summer e o funk lisérgico permeado pelo falsete à Bee Gees de Loser, mas é em Dracula, erguida sobre a arqueologia afro-boogie de Only You de Steve Monite, que Kevin Parker reconcilia a obsessão pelo estúdio com o escritor de cançōes pop vacinadas contra o vírus da normalização.
Logo em My Old Ways, a Feels Like We Only Go Backwards, candidata ao Óscar de actriz secundária, o padrão quatro por quatro do house é introduzido como genética de um álbum sem guitarras para convencer os puristas a ficar. Se Parker trabalhasse por turnos, Deadbeat seria a rede madrugada dos Tame Impala. Se a intenção era perder-se no desconhecido e arregalar os olhos só de manhã, estas cançōes não passam do balcão nem atestam o copo, mas a intenção conta.
Quando Parker se solta de uma auto-consciência determinada pela matemática, e o coração balança para o funk tocado por Nicky Siano, algures numa festa no Studio 54, como em Aftertought, o mercúrio sobe e os espelhos voltam a brilhar. É livre de restriçōes formais que a banda capitaneada pelo predador dos próprios instintos alimenta a fantasia de um caleidoscópio hedonista em que a liberdade comanda os ponteiros e a claridade é parte dessa nova aurora, como na segunda-mão de Enya em Peace of Heaven.
É que até a provocação indieológica de Oblivion - sim, aquele beat de afro-pop podia ter sido ruminado por Drake há uma dezena de anos - soa a subversão calculista. Kevin Parker rejeitou ser fotocópia do original próprio mas as grandes arenas têm um preço e Deadbeat é obra de quem quer mudar por dentro mas aceita as regras do jogo. Ser grande e melhor nem sempre concordam.
Apanhados das últimas semanas
Mobb Deep - Infinite
Construído sobre arquivo inédito e novos versos de Havoc, a virtude do primeiro álbum dos Mobb Deep pós-morte de Prodigy é resistir à mudança. O monolitismo de Infinite é presidido pela química invisível entre os dois, e por uma espessura física que pisa chão firme e indisputado. Mesmo desfalcados da presença de um dos mestres de cerimónia, só podiam ser os Mobb Deep a circular sobre uma história sem término à vista. Não é bem um álbum póstumo, é um acto de justiça poética.
Blawan - SickElixir
Graças a um arsenal sónico poderoso e desafiante, tudo em SickElixir ressoa a apocalipse transformador. De bases sólidas como o techno e a cultura bass, Blawan reinventa os princípios rítmicos e as camadas subterrâneas de maneira impiedosa. O álbum de estreia do produtor inglês é denso, complexo e punitivo. Há quem tente decalcar ingloriamente Aphex Twin. Blawan presta-lhe a vénia que importa. Seguir-lhe a idiossincrasia com pensamento próprio.
funcionário - horizonte
Os primeiros raios de luz nascem com o processo. Pedro Tavares entusiasmou-se pelas fontes sonoras do Moog e descolou. Horizonte não é bem um lugar. É um imaginário especulativo de infinitos oceânicos e galáxias etéreas, para além dos limites físicos fixados pela geografia. Mas se as noçōes físicas são liquidificadas, os estados emocionais não perdem o pé da natureza humana. Há uma nostalgia ressonante de um tempo ausente na linha deste horizonte. E toda a travessia desde a alvorada, o bater das asas, e o caminho de regresso, é um manual de voo.
sunn O))) - Eternity’s Pillars b/w Raise the Chalice & Reverential
A assinatura pela SubPop acorda o vulcão Sunn O))). Uma muralha sónica de guitarras ergue-se como Fénix em três peças extensivas, como é hábito da sua metafísica superior e monolítica, inspirada pelo programa televisivo Eternity’s Pillars, de Alice Coltrane, exibido na década de 80. Stephen O’Malley e Greg Anderson não estão só no topo da montanha, atingem o pico da transcendência.
Animal Collective - Feels (20th Anniversary)
A dobra do tempo acentuou as propriedades sensoriais de Feels. Vinte anos depois de ter levantado o chão, ainda ressoa a um grito jubilante, a um caleidoscópio polifónico da safra de Brian Wilson, a folk desobrigada e pop dadaísta. É a liberdade formal que define o vanguardismo dos Animal Collective e não um desejo legítimo de beber novas poções. A fonte onde Avey Tare, Panda Bear, Geologist e Deakin estava esquecida mas não morta. A insigne freak folk tinha em trovadoras como Vashti Bunyan lendas vivas de uma estranha forma de folk que os Animal Collective ressuscitaram como ritual metafísico e frenesim pastoral. Feels vem camuflado de delírio mas é, antes da sua glória insana, um reflexo demencial e uma celebração libertária da vida. Com Cripple Crow, de Devendra Banhart, e de Ys, de Joanna Newsom, um objecto essencial para compreender uma explosão subterrânea e uma anormalidade bajulada.
Brigitte Fontaine - Brigitte Fontaine Est Folle: Special Edition
Uma revolução estava a acontecer nas ruas de França e Brigitte Fontaine estava lá para a materializar em cançōes sobre o sexismo como L’Homme objet, a angústia existencial de Je suis inadaptée e o humor cáustico de Le Beau Cancer. As cançōes ainda respondem pelo ye-ye, mas são já um ensaio revoltoso e subversivo para estranhas formas de pop. Como o punk.
Seefeel - Pure/Impure (reedição)
O melhor da retroescavação de Pure/Impure da alvorada dos anos 90 é começar pelo fim quando o onirismo de Sarah Peacock é encharcado no trip-hop viçoso e desacelerado das remisturas de Time To Find Me, no dub atmosférico de Plainsong e na maqueta inaudita de Moodswing. De resto, a reunião deste três EP mostra os Seefeel a atravessar o canal entre o deslumbramento pelos Cocteau Twins e a busca por um lugar seguro para a incerteza.
Lightwerx Collective - A Peaceful Place
Celestial, flutuante e sedativo. O confronto de A Peaceful Place com o sobressalto do sistema nervoso é literal e não recusa os lugares comuns da terapia nem o modo funcional de playlist. A intenção é desacelerar e libertar o peso. Camadas atmosféricas - espaciais e aquáticas - agem como ansiolítico. Eficaz como chá verde para efeitos de reequilíbrio, recuperação do sono ou simples abstracção.


