Lendas e ícones. Adágios tão banalizados que se trata o ouro como pechisbeque e vice-versa. No zénite de Voodoo, a jóia da coroa de uma frustrante discografia de apenas três álbuns, D’Angelo e o baterista ?uestlove, que se arrependera de ter recusado o convite para produzir o inaugural Brown Sugar, seguiam ao milímetro os passos de um concerto de James Brown em 1964. Nem a aclamação o desviava do estudo intensivo dos mestres - Stevie Wonder, Prince, Al Green, Aretha Franklin e Marvin Gaye - descreve Jon Blistein, que com ele privou nesse apogeu milenar, nas exéquias escritas para a Rolling Stone.
Venerado como um Deus, Michael Eugene Archer, nascido a 11 de fevereiro de 1974, desprezava as luzes e caminhava longe do altar. No reverso da glória e salvação, efabuladas pelo messianismo, havia depressōes, fugas, alcoolismo (uma das causas comuns do cancro no pâncreas) e outros excessos que o famoso falseto em cama de dossel não transparecia. Cinco anos depois da assombração Voodoo, os boatos alimentados pelo silêncio transformaram-se em facto pelos piores motivos. Fora detido por posse de marijuana, no início de 2005, e as fotos expunham-no obeso e fora de forma. O físico escultural do vídeo icónico de Untitled (How Does It Feel), exibido após cinco anos de treino rígido, tornara-se no pior pesadelo de um anti-ídolo. O músico implodira perante o sex symbol indesejado e o espelho invertera-se. D’Angelo vivia um conflito interno, agudizado por problemas com a indústria, como a rescisão com a editora Virgin, e o mundo reencontrava-o agora através de uma mugshot embaraçosa e redutora. Uma semana depois, antes de se apresentar ao juiz, despistou-se, foi projectado do Hummer onde seguia e partiu as costelas. Não se vergou perante o vexame nem apressou o passo. Continuou, como sempre, a circular sobre linhas turvas.
Julgávamos vê-lo nu, feito de carne doce e testosterona sensível. Um macho sem alfa, vulnerável e penetrante, aprendiz do divino e operário da arte mais profunda, e por isso violenta, mas pouco sabíamos sobre ele. Quando o TMZ noticiou a partida, ficámos a saber que o motivo fora um cancro pancreático - implacável inimigo interno como todos os que o perseguiram sem dó nem piedade. Depois de Untitled (How Does It Feel), deixámos de ver o cantor e passámos a admirar o homem-estátua. Por onde andaria D’Angelo nas últimas estaçōes? Provavelmente no hospital, acompanhado do filho que Michael D’Angelo Archer II, tirado do ventre da também cantora soul Angie Stone (a musa de Brown Sugar), morta num acidente de carro a 1 de março, com quem invertera a ampulheta. Ela 30, ele 19, quando deram a mão.
Deixemos o prefixo neo para as revistas e concentremo-nos no que importa mesmo. O grande livro da música afro-americana. Se Marvin Gaye foi o profeta da soul fundadora - arma pacífica no movimento dos direitos civis -, D’Angelo foi o guia espiritual da soul milenar dos anos 90 e 2000 - consciente do sangue, das lutas e das conquistas, mas também da importância socioartística legitimada pela história de violência dos EUA e da evolução estética desaguada numa homenagem chamada hip-hop. Apesar de todo o disfarce permitido pelas máquinas, D’Angelo, treinado numa Igreja Pentecostal, nunca abdicou do analógico. Génios são aqueles que não descem do castelo e nele o princípio era o da perfeita imperfeição. Tudo parecia um elixir afrodisíaco de luta desgastante e prazer magnético - do inferno ao céu em milésimos de segundos.
A ausência de D’Angelo era fascinante. Entre Voodoo (2000) e Black Messiah (2014) passaram catorze intermináveis anos. Um túnel de avanços, recuos, despistes, boatos, regresso aos palcos e, por fim, a luz. Apesar da devoção, estimulada pelo entusiasmo adolescente de assistir ao renascimento de D’Angelo, o álbum foi tão polido em estúdio que perdeu a espontaneidade e crueza. A entrega ao erro elevara os termómetros do estúdio em Brown Sugar e Voodoo. Compreende-se que de então para cá o peso do reconhecimento e o trauma da expectativa tenha provocado uma relação obsessiva com o detalhe, mas o radicalismo era um rim impossível de arrancar.
Nos últimos anos, deixou pequenos sinais de fumo. Participou em I Want You Forever, com Jay-Z, da banda sonora d’O Livro de Clarence (2024), e em Unshaken, com o produtor Daniel Lanois, habitual co-piloto dos U2, do filme Red Dead Redemption 2 (2018), a que se seguiria uma rara aparição no Tribeca de Nova Iorque. Segundo o músico Raphael Saadiq, em 2024 estava bem e a preparar novo álbum. A fonte é segura mas em que estado de gestação se encontaria? D’Angelo vivia como um eremita. Não gostava de se expor e de acordo com a People, tinha problemas de peso. Não se sentia confortável com a imagem erotizada nem queria admitir a obesidade. Nele, a autenticidade nunca precisou de ser verificada por polígrafos. Sempre veio à tona como pulsão sangrenta de uma alma dorida. E a charada que o envolvia como auréola favorecia-o. Teremos sempre as cançōes para testemunhar pelos poros do desconhecido. As lendas são assim. Basta-lhes ser, não precisam de estar.


