Daniel Lopatin nomeou-o Tranquilizer como causa e efeito. Há um metaverso sobrenatural a entrever um outro mundo, em que a Internet é agora o fundo do oceano, os cabos de fibra óptica são navios submersos e os discos rigídos equivalem a caixas negras de um tempo que julgávamos ser de últimos inventos e derradeiras descobertas. E em vez de bleeps, dados treinados e simulaçōes de verosimilhança, somos cercados por água, sons de pássaros e o choro de uma criança. Não é bem um regresso ao futuro, é o futuro a regressar da tempestade e a atracar de volta na boa esperança.
Os primórdios da Internet actuam como princípio de uma memória virtual e esquecida nos confins da World Wide Web. Tranquilizer é construído a partir de um acervo de velhos colecçōes de CDs de sons livres de direitos autorais que se vendiam nos anos 90 e no início dos anos 2000. Lopatin encontrou-os o Internet Archive, até a sua pesquisa ser detectada e o arquivo removido. É também um regresso aos métodos regenerativos de Replica, em que remontou anúncios publicitários dos anos 80 e 90 retirados de uma colecção pirata de DVD.
Quando Oneohtrix Point Never não está a trabalhar com The Weeknd, Anohni ou Charli xcx, dedica-se à arqueologia tecnológica, e a pesquisa redunda num velho mundo novo esculpido com técnicas ancestrais em fragmentos de um progresso ultrapassado. A escolha dos materiais é fulcral para ficcionar uma new age desacelerada e contemplativa, reactiva à hiperactividade temporal e ansiedade global. Tranquilizer reivindica uma importância espiritual transcendente dos tecidos usados, e transforma-se numa costa de erupçōes serenas.
Tranquilizer tanto se sossega no Chill Out dos KLF, como na The Ambient Collection dos Art of Noise, nos Selected Ambient Works 85–92 de Aphex Twin, deixando-se arrastar pela guitarras lisérgicas de David Gilmour. A sensação inevitável de nostalgia, de visita às ruínas de uma cidade suspensa nunca trespassa o devir, nem nos coloca perante a espada de um pretérito perfeito. Trata-se antes de um exercício sensorial de corte e colagem, de reorganização da informação e proposta de uma utopia confortável.
Evita-se o confronto com a violência e a ruptura com a civilização incivilizada. Há um ciclo temporal a reiniciar-se em Tranquilizer como memória selectiva de uma amenidade juvenil e irresponsável, perdida no medo do escuro e no combate desigual pela sobrevivência. Tudo é um estado transitivo.
Oneohtrix Point Never apresenta-se na Culturgest a 14 de abril de 2026
De La Soul - Cabin In The Sky
Nove anos depois de And the Anonymous Nobody…, e já sem Trugoy the Dove, ou seja Dave, a quem o disco é dedicado, os novos De La Soul são os de sempre. E basta. Posdnuos e Maseo pintam em quadro em tons quentes de um mundo paralelo, por vezes surreal, com a ajuda de amizades como Nas, Q-Tip, Black Thought, Killer Mike, Common, Pete Rock, Yukimi, Bilal, Yummy Bingham e Slick Rick. Uma grande família do hip-hop espiritual e encorajador. Não vai salvar o mundo, mas pode clarear uma manhã.
DJ Lag - Southside Mixtape
Quando o amapiano invade a produção pop e as pistas inconformadas com a exclusividade dos modelos house e techno, é importante reavivar a influência do Gqom na cola da etnografia rítmica de Durban com a ginástica rítmica ocidental. DJ Lag é a figura tutelar mas nesta mixtape não se limita a dar uma volta de consagração. Absorve de culturas subterrâneas como o afro-tech, o baile funk e vocais de house tradicional como em Shona Malanga, o cocktail frutado de Southside. O Gqom age como centro de gravidade, eufórico, crescente e universal. Salto em frente.
SML - How You Been
O discurso já não cola como novidade mas preserva-se naturalmente como ética de trabalho. O jazz como campo grande em vez de fechar como gaveta ou fixar como estante. SML é um quinteto de personalidades prolíficas da International Anthem, a casa mais influente do jazz de ponta. Anna Butterss, Jeremiah Chiu, Josh Johnson, Booker Stardrum e Gregory Uhlmann brincam no recreio com sintetizadores analógicos, percussōes, saxofones, e manipulaçōes pós-sonoras que expandem o jazz até mais infinito. E como exímios músicos, há segurança neste risco.
Marcelo dos Reis - Flora - Our Time
Vem assinado como Marcelo dos Reis, mestre do improviso para seis cordas, mas a importância do trio Flora é fulcral para a coesão de Our Time. A guitarra é a musa, e é sobre ela que a atenção recai. Um corpo eléctrico em rotação permanente, do psicadelismo a algum jazz europeu de ponta, mas se o álbum cresce como arco triunfal, jubilante e eufórico, deve-se à solidez do trio formado com Miguel Falcão (contrabaixo) e Luís Filipe Silva (bateria).
Jessica Williams - Blue Abstraction: Prepared Piano Project 1985–1987
Piano preparado, teclas trituradas. Jessica Williams (1948 - 2022) transgride as normas do jazz para criar um novo som. Domina as linguagens clássicas, de Monk a Oscar Peterson, mas nunca se limita ao copismo. O piano é explorado, percutido e amassado como metamorfose de uma outra cauda. O exercício é de uma liberdade radical permitida por uma solidão extrema. Foi nessa condição de eremita que brotou um período de intensa fertilidade e invenção, documentado nesta recolha temporal. Impressionante.


