Há uma surpresa a aguardar por visitas em Hit My Head All Day. Um baixo disco a pilotar seis minutos de white funk desacelerado, devedor do David Bowie de Scary Monsters & Super Creeps. Em Cruise Ship Designer, insinua-se uma guitarra tricotada à Pixies mas a voz clínica de Florence Shaw guia a canção para a teatralidade franca dos The Fall. E de novo os Pixies assaltam My Soul/Half Pint, sólida, abrasiva e vibrante, enquanto Secret Love (Concealed in a Drawing of a Boy) é o passeio no parque do terceiro álbum dos Dry Cleaning.
Não tão intenso como New Long Leg mas mais vivo que Slumpwork, Secret Love justifica a espera e descobre novos prazeres na prescrição. As imagem são vivas e quentes. Há uma tensão que se perdeu num segundo álbum algo precipitado e volta cmo maré. Os Dry Cleaning parecem ter restaurado e dilatado o seu raio de acção, sem adulterar o código genético ou perder-se em dados treinados pelo cálculo de probabilidades.
Enquanto assimilamos a passagem do tempo numa banda que ainda é mesma mas já ensaia a metamorfose - ainda soa a um grupo de amigos a investigar em estúdio - os quatro membros aceitam os códigos sociais de relacionamento e requebram-se para o TikTok nos vídeos publicados - mesmo quando as cançōes pedem outros rituais como a fantasmagórica Evil Evil Idiot - a mais escura de um álbum que abre a janela para sentir o vento na face.
Em Rocks, o pós-punk titulado pelos Joy Division, de New Dawn Fades, merece as insígnias. Vinhetas como The Cute Things demonstram a simplicidade das ideias. Uma secção rítmica seca e grave, guitarras cheias de atrito e Florence Shaw, na qualidade de juiz da decadência. Nem sempre é como começa, e os Dry Cleaning gostam de correr riscos, como na espectral I Need You, muito encostada aos Blue Nile. O final sim, é feliz, com uma Joy auto-explicativa e os dotes coreográficos do guitarrista Tom Dowse a impressionarem. Quem adivinhava que a sina de Secret Love seria uma última dança?
Sault - Chapter 1
Ao 13º álbum, a cristalização é natural e inevitável. Pouco surpreende nos Sault, salvo a participação inusitada da dupla de alquimistas da pop dos anos 80 Jimmy Jam and Terry Lewis. Porém, é a mão de Inflo a pesar sobre a espiritualidade dos Sault vestida por funk, blues e rock’n’roll clássico. Sinais dos tempos, os temas estão mais explícitos e directos ao colapso civilizacional, mas a linguagem é monolítica. O mesmo é mais.


