Cumpriu-se a profecia de 2025. A inteligência artificial inseriu-se como pasta de dentes diária e, por causa disso, como centro de discussão política e filosófica. Se a espuma dos dias nem sempre o transparece, é por miopia dos decisores e respectivas oposiçōes. Aos poderes instalados, a visão ultraliberal, sem escrutínio da IA, é tão conveniente como insensata. E se cada aluno tivesse um tutor de Inteligência Artificial?, provocou o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, na abertura da Web Summit. A deixa carece de provas científicas mas é óptima para desvalorizar o papel da docência no ensino. Entrega-se a password a um assistente virtual e o professor passa a ser um chatbot. A verificação de factos é um empecilho para o tecnofeudalismo. Desconfiar do absolutismo da AI é refutar a automação do pensamento.
2025 enfatizou a consciência de um ecossistema digital desenhado como hipermercado ideológico e prisão existencial. Comportamo-nos como os toxicodependentes do Casal Ventoso nos anos 90 - infelizmente, a tendência auto-destrutiva regressa sempre que os tempos endurecem e a dita dura é o último reduto. Já há um consenso razoável de que as redes sociais, em particular mas não só, se tornaram parte do problema colectivo e não da solução, mas a grama individual continua a satisfazer o corpo. A percepção do problema é a primeira pedra da cura mas ainda estamos longe de avistar novos metacontinentes. Para os unicórnios 2.5, a IA é a terapia mais avançada. Um comprimido azul em pílula dourada, sem portes de envio.
Tudo perfeito, definitivo e irrefutável. Um foguetão supersónico para a felicidade. Fala, responde, resolve o trauma da solidão e promete oferecer o elixir do prazer. Como sempre, não se trata de negar as potencialidades infinitas e desconhecidas da IA. Ainda é só o começo e anunciam-se efeitos benignos, por exemplo na saúde, como o diagnóstico de cancros, mas daí a uma tecnologia substituir um médico de família, há um espaço sideral. Enquanto as noçōes de território se liquidificam e expandem para além de limites físicos, o senso-comum da evidência factual é reduzido a um pingo de chuva a escorrer pela cara - um empecilho para o mundo novo.
Um estudo realizado através de prova cega pela Ipsos para o Deezer revela que 97% dos nove mil inquiridos não conseguiram identificar cançōes geradas por IA. Nenhuma surpresa no resultado. A história da tecnologia recente diz-nos que a evolução é cada vez mais rápida e difícil de acompanhar. A falta de uma literacia digital - tema que nem a esquerda se atreve a propor, tão entretida que está a editar Reels - que se proponha a agir como educação gradual e permanente nas escolas, na função pública, no privado e até na reforma, que, de uma vez por todas, desinfantilize a tecnologia e a ensine como linguagem vital, é a única resolução possível para incrementar o conhecimento e resolver o diferendo entre deslumbramento e temor. De outra forma, está a pedir-se a analfabetos funcionais que saibam ler uma pauta.
O anátema é posto no individuo. Num grupo de humanos analisado como rato de laboratório perante uma droga nova. Espera-se que o bom-senso e a ética resolvam o que nasceu amoral. Não deveriam ser as plataformas de streaming, em que genéricos de country-sem-chapéu como Walk My Walk transfiguram as tabelas numa terra sem lei, obrigadas a legendar essa nuance criativa? Joga-se aos espelhos com a pós-verdade. A IA na música popular é um reflexo de uma escolha política de não limitar a velocidade nem impor portagens nestas autoestradas. Quando a regulação se aplicar, provavelmente já terá chegado tarde ao acidente. Somos servos destes feudos e sorrimos.
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Percebendo o anti-ciclone a chegar ao continente, as multinacionais Sony, Universal e Warner assinaram um acordo de licenciamento com a startup de AI Klay, que se propōe a promover o potencial tecnológico garantindo preservar “artistas, compositores e detentores de direitos”. A plataforma está a trabalhar numa ferramenta interactiva “treinada a partir de música licenciada [pelas três editoras]” que promete “impulsionar a criatividade humana”, em vez de a substituir. “Um novo produto por assinatura”, reproduz a Music Business Worldwide. Depois de a revolução do streaming ter descarrilado para a merdificação generalizada, profetiza-se uma nova era. E vem-nos à memória uma frase batida: “estaremos preparados?”, quando a pergunta deveria ser “quem nos defende desta concentração de poderes?”. É nas nuvens da influência que o futuro se desenha.



Davide, há uma lucidez abismal neste texto. A proposta para uma literacia digital é a chave, diria eu que pouco ou nada pesco disto. O Doctorow quando explanou a merdificação nos últimos anos, numa era pré-IA, alertou para os mesmíssimos perigos. Acrescento que há o sério risco da própria utilização da IA acabar merdificada e nós, a humanidade, teremos poucas ferramentas para nos desenmerdar. Perdoa-me o vernáculo.