Como n’O Estranho Caso de Benjamin Button, o filme de Gala começa pelo final. Há uma personalidade em crescimento e uma linguagem que se refina sem se despolarizar. Ainda são umas Lush cruas mas já a abrir avenidas para o bravado do shoegaze. Guitarras etéreas, texturas abrasivas, jogos harmónicos entre Emma Anderson e Miki Berenyi, e um duelo constante entre delicadeza melódica e ruído envolvente. Por contraste com outras bandas da 4AD e com os futuros colegas de página My Bloody Valentine e Slowdive, as Lush eram dotadas de uma sensibilidade pop mais explícita, sem perder a densidade. O triângulo Sweetness and Light, Sunbathing e Breeze, de outubro de 1990, é de uma claridade jubilante e encaminha as Lush para uma utopia real e tangível.
Rescaldo de dois anos imparáveis de rápida evolução e promessa cumprida, a colectânea foi editada para servir de cartão de visita nos mercados americano e japonês, e reuniu os EP de 1990 Mad Love e Sweetness and Light, ambos desse ano, ao mini-álbum inaugural Scar, de 89. Para a sobremesa, uma versão de Hey Hey Helen, dos Abba, e uma remistura de Scarlet, por Robin Guthrie, dos Cocteau Twins, para uma compilação do Melody Maker.
Em De-Luxe e Leaves Me Cold, encontramos as Lush no apogeu da rebentação. Ruído, harmonias pop e guitarras jangle coexistem sem se canibalizar. Com uma secção rítmica mais extrovertida, Downer podia entrar no catálogo dos Dry Cleaning. E há Thoughtforms, filha bastarda da cascata onírica e celestial dos Cocteau Twins, produzida por Guthrie, com quem já planeavam trabalhar desde Scar.
“O termo shoegaze foi inventado para se referir aos estudantes chatos que ficavam a olhar para os próprios pés em palco”, recordava Miki Berenyi em entrevista recente à revista Flood. A explicação podia ser adoptada como legenda pelo TikTok para o súbito e inexplicável contágio do subgénero na plataforma, mas tem outro propósito. As camadas flutuantes das duas vozes camuflavam uma desolação terrena no centro do turbilhão de guitarras.
As colectâneas costumam ser desvalorizadas em relação aos álbuns mas o comboio descendente de Gala é um expresso não só pela memória das Lush, mas um pedaço da arqueologia da madrugada de uns anos 90 exorbitados até hoje. No mini-álbum de estreia Scar, a instabilidade emocional das cançōes expunha nervo (Baby Talk) e uma compulsão pós-punk, assimilada de Siouxsie & The Banshees, notada na circularidade hipnótica da secção rítmica de Second Sight, no baixo amotinado de Bitter, na órbita suspensiva de Scarlet e na literalidade de Etheriel.
Para uma banda a navegar ao sabor da amizade de Anderson e Berenyi, apenas com dois anos de vela, tudo aconteceu à velocidade da Lush - talvez mais depressa do que pudessem suspeitar, mas os romances mais intensos não têm limite de velocidade. No revivalismo shoegazer, não há energia renovável como esta. A naturalidade das Lush sobrepunha-se a qualquer intenção racional e quando o ruído exterior interferiu na fluidez, a parede sonora ruiu.
Além da reedição remasterizada de Lush, foi disponibilizado no YouTube o filme de estrada A Far From Home Movie. O retrato da intimidade da banda em digressão foi captado em Super8 pelo baixista Phil King entre 1992 e 1996.
Tortoise - Touch
Touch tardou nove anos, devido às mudanças geográficas dos diferentes membros. Foi gravado em três cidades e os cruzamentos levam-nos a diferentes roteiros. Os Tortoise são um ilhéu de possibilidades em que cada personalidade parece dirigir a sua rota. Há o pós-rock denso de Vexations, o jazz de Works and Days e Oganessa, a pop sintetizada de Elka e sessentista de A Title Comes, o kraut de Axial Seamount, e a hora da despedida de Night Gang. O caleidoscópio é instável e díspar, apesar de os Stereolab pairarem como banda-sombra, mas é no jazz que os Tortoise se sentem em casa, provavelmente devido à autoridade de Jeff Parker.
Concertos em Braga, a 19 de abril, no Theatro Circo e Lisboa, a 20 de abril, na Culturgest
Navy Blue - The Sword & The Soaring
A navegação de Sage Elsesser é paciente e tranquila. Prevalece o auto-controlo, a espiritualidade e uma relação sadia com o ego, transplantada para a relação com a harmonia instrumental. A renascença de um hip-hop mais próximo da etimologia original tem em álbuns como The Sword & The Soaring pedras da reconstrução do castelo.
FKA Twigs - Eusexua Afterglow
Na mesma sexta-feira, Eusexua é remodelado com quatro inéditos do mesmo tecido excêntrico e frágil, em que fascinem tecnológico e condição humana convergem. O derradeiro Lonely But Exciting Road indicia uma suspeita: Madonna circa Ray of Light. O triângulo das Bermudas é o house libertador, o trance desacelerado e o trip-hop espiritual. Sem se desviar das coordenadas, Eusexua Afterglow é um álbum novo. Confuso? Chamar-lhe sequela ou irmão mais novo não é ofensa. Coexistem maximalismo, intimidade, as camadas metalizadas, o bass como condutor e o caos organizado como última estação desta linha azul.
caroline - caroline 2 (deluxe)
A translucidez de caroline 2 deixou-nos um dos melhores álbuns de 2025, que nem um ano de seca deprecia. Toda esta música parece existir numa bolha à parte. Uma paralaxe ensaiada por titãs do pós-rock como Tortoise, Godspeed You Black Emperor! ou ainda pela grande beleza dos detalhes dos Dirty Projectors, que os caroline vivem à sua maneira. 40 minutos de material extra condensam uma versão dos Coldplay, maquetas e inéditos. O reforço ainda soa a pão quente a sair do forno de lenha e vinca a autenticidade desta aventura. Eles não estão preocupados em chegar, apenas em ir.
Leila - Courtesy of Choice ۲۵... asides and besides (25th anniversary)
Objecto estranho, repleto de perturbaçōes, Courtesy of Choice conserva ainda assim um charme magnético que o faz renascer sem danos 25 anos depois. Menos evidente do que o clássico Like Weather, de 1998, nasce dos escombros do trip-hop na vizinhança de Aphex Twin (com quem trabalhou, após ambos se terem conhecido quando Leila estava em digressão como membro da banda de Björk) e sobretudo dos Plaid. As texturas granuladas e o prazer de divergir através de loops dissonantes realçam uma identidade com assinatura. Courtesy of Choice pode ter ganho pó em armazéns, enquanto alguns esclarecidos o disputavam a preço generoso no Discogs, mas se hoje falamos da realidade fragmentada de Tirzah, Coby Sey ou John Glacier, o cadastro chama-se Leila.


